domingo, 22 de julho de 2018

COMENTÁRIO PARA A WOOK SOBRE O LIVRO "A DOENÇA DA FELICIDADE"

A Porto Editora convidou-me para escrever um comentário ao livro "A Doença da Felicidade", de Paulo Miranda.



PENSAR A FELICIDADE AO CONTRÁRIO

Desde 1998 que leio livros técnicos sobre a felicidade. Principalmente na área da filosofia, mas por vezes, leio também noutras áreas, como a psicologia, a economia, a política e a comunicação social.
Ler este livro de Paulo Miranda foi um autêntico exercício filosófico. Pensar na situação ao contrário. Costumo utilizar esse instrumento nas minhas consultas de aconselhamento filosófico. É muito útil para desbloquear situações, quando as pessoas sentem alguma dificuldade em desenvolver o seu pensamento na análise de uma situação da sua vida. Pensar ao contrário pode abrir um novo horizonte, uma nova perspetiva.
Seja como for, este livro não defende uma definição filosófica de felicidade, mas uma definição neurológica. E este é o ponto central da aventura.
Para quem leva a sério estes temas é importante ter em atenção que existem várias definições de felicidade e que a sua diferença é significativa quando estamos a olhar para áreas científicas também diferentes.
Uma ideia interessante é considerar que a felicidade é uma questão humana transversal, que deve preocupar os governos, as organizações e as pessoas. Neste livro, é dado mais destaque à dimensão da saúde pública.
É interessante o termo "eudaimonina", recuperado da tradição aristotélica e utilizado para denominar uma endorfina produzida pela hipófise, substância que levaria as pessoas a procurarem a felicidade. Assim surgiria a "eudaimonologia clínica".
Os sintomas da felicidade seriam uma espécie de alucinação, um delírio, que levaria as pessoas a não querem trabalhar muito, a valorizarem-se excessivamente e a não conseguirem abandonar esse desejo, nem a admitirem a doença.
O livro vale pela exploração que faz desse "novo" paradigma e pela análise de casos-de-consulta, ao mesmo tempo que desenvolve as vivências das personagens na história, transportando-nos para o seu âmago. É igualmente interessante ver os exercícios sugeridos para evitar a doença da felicidade, assim como o contributo das várias componentes da vida: fazer amor, dançar, cantar, desporto, etc.
No entanto, o autor recorda-nos sempre que não existe cura para a doença da felicidade e que a sua causa poderia estar na necessidade de suportar a dureza da vida.
Talvez por isso o medo tenho um lugar de destaque na saúde humana.
No final do livro seria interessante traçar o perfil da pessoa infeliz e saudável: Florence.
Uma conclusão: a arte só sobrevive porque é realizada por um "infeliz".

Autor: Jorge Humberto Dias

Fonte: Wook
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