quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

RESPOSTA À DRA. LIA NEVES - artigo publicado no "De Rerum Natura"



(clique na imagem para ler o artigo da Dra. Lia Neves)

Peço desculpa por só responder agora a este texto desafiante da Dra. Lia Neves, mas estava a terminar um artigo científico.

A primeira sensação que fiquei, ao ler o texto da Dra. Lia, foi que o mesmo veio com 8 anos de atraso. A entrevista do jornal Público data de 2009. Estamos em 2017.

Depois de ler o texto pela segunda vez, percebi que a grande questão de fundo da Dra. Lia é a saída profissional da área científica de Filosofia. Aí estamos de acordo. Desde 1998 que é um tema do meu interesse e reflexão.

No entanto, o texto da Dra. Lia está repleto de alguma tensão emocional. Penso que nas redes sociais, terei lido o professor doutor Pedro Galvão a proferir a mesma ideia. A dúvida que persiste na minha mente é: será essa emoção indicador de um elevado interesse no aconselhamento filosófico ou será antes um sinal de alguma frustração para com a filosofia como área científica e profissional?

Quanto à falta de rigor, que a Dra. Lia atribui às respostas que dei ao jornal Público, penso que é normal, pois num jornal diário, não é expectável que entremos em reflexões académicas profundas, técnicas e rigorosas. Para isso, aconselho da Dra. Lia a visitar as minhas publicações científicas, disponíveis no Academia.edu:

http://ucp.academia.edu/JorgeHumbertoDias 

Por essa razão, no dia 4 de Fevereiro, quando li o texto da Dra. Lia, de imediato lhe enviei uma mensagem a manifestar a minha disponibilidade para partilhar algumas referências bibliográficas na área do aconselhamento filosófico, assim como informação de mestrados na área.

Outra questão que também concordo tem a ver com a estrutura das licenciaturas. No livro “Idea y Proyecto. La Arquitectura de la Vida”, apresentei uma proposta com várias disciplinas interessantes, desde o direito ao marketing, passando pela psicopatologia e pela contabilidade. Poderia ainda acrescentar as TIC e as línguas estrangeiras. Julgo ser esse o espírito de Bolonha, embora as contenções orçamentais não permitam às universidades oferecer tanta diversidade. A questão de fundo é: como preparar um licenciado em filosofia para o mercado de trabalho esgotado e competitivo que temos hoje?

Quanto a uma pós-graduação, recordo que em tempos, ainda eu era presidente da direção nacional da Associação Portuguesa de Aconselhamento Ético e Filosófico, que uma equipa de associados esteve a construir um currículo em parceria com o Instituto Piaget. Neste momento, não sei como está o processo. No estrangeiro, consegue encontrar mestrados. Eu mesmo já fui professor convidado na Universidade de Sevilha e na Universidade de Barcelona. Sei que na Roménia existe, nos EUA, em Inglaterra, em Itália.

A questão da qualidade, na minha ótica, está diretamente relacionada com a existência, numa determinada organização, de profissionais especializados numa determinada área. No Gabinete PROJECT@, existem vários colaboradores com doutoramento e com teses sobre o aconselhamento filosófico.

O segundo parágrafo do texto da Dra. Lia é sobre o trabalho do Dr. Menezes. Não me vou aqui pronunciar sobre o tópico, mas sugiro a análise que a Dra. Rosa Oliveira fez num artigo científico para a Revista Internacional de Filosofia Aplicada:

http://institucional.us.es/revistahaser/index.php?page=numero-7-2016

Também sugiro uma entrevista que a Dra. Rosa deu ao projeto Philosophical Practice, do professor doutor Ran Lahav:

https://philopractice.org/web/rosa-oliveira

No final do segundo parágrafo, a Dra. Lia refere-se a Sokal. Confesso que não conheço o seu trabalho, mas penso que poderia ser interessante explorar a questão do relativismo cognitivo no aconselhamento filosófico…

O terceiro parágrafo, parece-me, está um pouco impercetível. No entanto, penso que a Dra. Lia quer abordar a questão da organização que representa os consultores filosóficos em Portugal. Em 2004, foi fundada a APAEF (Associação Portuguesa de Aconselhamento Ético e Filosófico), onde foram realizados os primeiros 6 cursos, onde se elaborou um regulamento de formação e certificação com 3 níveis, onde se realizaram também 4 congressos internacionais (tendo trazido a Portugal alguns especialistas de prestígio na área do aconselhamento filosófico e da filosofia para/com crianças), e onde se publicaram algumas obras importantes, como atas e um manual de formação. Em 2008, Nuno Paulos Tavares era eleito presidente da APAEF. Em 2012, foi José Alves Jana. Este ano haverá eleições na APAEF…

https://apaef2014.wordpress.com/about/

Em 2008, um dos formandos da APAEF dinamizou a criação da APEFP em Braga. E assim a área tem vindo a crescer em Portugal.

Termino, com uma indicação que considero essencial. Em 2013, o Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa convidou-me para coordenar a linha de investigação em filosofia aplicada. Desde esse momento que temos vindo a trabalhar, no sentido de realizar estudos fundamentais e aplicados sobre o aconselhamento filosófico. Todos os interessados em colaborar são bem vindos.

http://cefi.fch.lisboa.ucp.pt/pt/investigacao/investigadores/76-jorge-humberto-guerreiro-dias.html 

Penso que terei respondido a todos os desafios que me foram colocados. É para mim uma grande honra poder ver publicado o meu nome num artigo de importante reflexão e num blogue de redobrado prestígio. Esperemos que esta semente da Dra. Lia traga novos frutos em breve. Muito obrigado pelo tempo dedicado.

Cumprimentos.
Jorge Humberto Dias
Email: jorgedias@fch.lisboa.ucp.pt
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