terça-feira, 22 de dezembro de 2015

RESPOSTA DE JORGE HUMBERTO DIAS A RICARDO ARAÚJO PEREIRA (revista VISÃO)


Na semana passada, Ricardo Araújo Pereira (adiante RAP) escreveu, mais uma vez, sobre filosofia. Foi na edição nº 1188 da revista Visão. (para ler a coluna, clique AQUI) Para ser mais preciso, desta vez, RAP referiu-se ao mau trabalho dos filósofos. Vejo aqui uma ironia, naturalmente. E até consigo identificar uma mensagem positiva, que seria algo deste género: a filosofia atual tem de se libertar das algemas gregas e trabalhar mais o mundo contemporâneo, à semelhança daquilo que as outras áreas científicas já fazem.
Seja como for, ao ler a Boca do Inferno da semana passada, senti de imediato o "dever kantiano" de responder a essa imagem dos filósofos.

RAP tem feito muitos trabalhos sobre filosofia... ("História da Filosofia em folclore" - AQUI; "Filosofia do Snooze" - AQUI) mas tenho quase a certeza que RAP desconhece o movimento da Filosofia Aplicada. É natural, a filosofia em Portugal não tem muita expressão nos media, nem nas redes sociais.

Ainda me lembro de um teatro que vi no São Luiz, em 2007 ou 2008, representado magistralmente por RAP, sobre a filosofia de John Austin, um filósofo académico e analítico, que faleceu em 1960. (veja AQUI o cartaz) Se tentarmos pensar um pouco, é provável que esta opção de RAP e de Pedro Mexia, explique o entendimento que têm sobre o lugar da filosofia na atualidade...

Se o humorista conhecesse algo sobre a filosofia aplicada, já teria investigado o site da Society for Applied Philosophy (conheça AQUI), onde encontraria um conjunto diversificado de artigos científicos sobre temas da nossa vida quotidiana, revelando, por parte da academia anglo-saxónica, uma preocupação significativa por temas da atualidade, que contêm problemáticas filosóficas.

Nessa linha, sugeria um trabalho que o nosso grupo de investigação produziu no CEFi da Universidade Católica Portuguesa (conheça AQUI): Metodologias Aplicadas desde a Filosofia: Estabelecimentos Prisionais, Empresas, Ética, Consultoria e Educação". (pode ter acesso a uma versão livre no Googlebooks AQUI)
Nesse livro, poderá encontrar um artigo escrito pelo professor Mendo Henriques, intitulado "Teoria do Obrigado e Desculpa. Contributos de uma Heurística Lonerganiana para a Filosofia Aplicada".
O artigo é de 2011. Portanto, recente.

RAP diz na sua coluna que "os filósofos têm recusado reflectir sobre o problema da contiguidade de obrigados."
Como o leitor/a já deve ter percebido, é falso.
A não ser que RAP se esteja a referir apenas aos filósofos antigos da Grécia Clássica... Não me parece, pois os tempos verbais estão aplicados num histórico contínuo: "têm recusado reflectir". Estão aqui incluídos todos os filósofos: os antigos, os medievais, os modernos e os contemporâneos.

Outra questão que não gostei (sorriso) na coluna do RAP foi a consideração de: "É mais fácil andar pelas ruas de Atenas a tagarelar com Trasímaco acerca da definição de justiça." Para quem não sabe, RAP está a citar o livro de Platão A República, onde Sócrates e Trasímaco desenvolvem um diálogo filosófico (e não "tagarelice") sobre o conceito, também filosófico, de justiça. Concordemos ou não com a teoria de Sócrates, o seu papel foi bastante importante para a evolução da história civilizacional. Sabe qual era a definição de justiça de Trasímaco? "Realizar o interesse do mais forte." E que trabalho filosófico realizou Sócrates? A análise crítica desse conceito, questionando e testando, com exemplos concretos e imaginários, até conseguir alcançar uma definição mais completa e racional. De um governo mais ditatorial, chegou-se a um governo mais democrático... Hoje todos conhecemos o valor desse contributo. E o facto de ter sido condenado à morte, bebendo a famosa "cicuta" (veneno), só pode deixar-nos ainda mais orgulhosos desse valor.

Em Boca do Inferno, RAP propõe três hipóteses para o agente moral: 1º - agradecer apenas a metade das ações praticas numa situação (O exemplo usado foi o pagamento ao taxista); 2º - agradecer apenas no final da situação; 3º - ser criativo e agradecer com sinónimos.

Depois de ter lido o artigo de Mendo Henriques, podemos fazer uma contra-proposta a RAP: 1º - sugerirmos a leitura do Timeu, outro livro de Platão, que fala da importância da racionalidade nas tomadas-de-decisão (o verdadeiro problema de RAP); 2º - uma decisão depende do tipo de relação que temos com o outro (neste caso, o taxista); 3º - a gratidão é um ato que retribui o bem com o bem, sendo por isso um ato universal, praticado em todas as culturas, gratuito, que reforça a situação e a relação entre as pessoas.

Portanto, a solução para o problema de RAP é uma mixórdia de atos de reconhecimento: no início fazer um gesto (por exemplo, sorrir), depois dizer uma palavra simpática (por exemplo, "muito bem" ou "com certeza"), de seguida, dizer obrigado e no final fazer um donativo (a tão desejada "gorjeta").

Só tenho um receio: que esta atitude filosófica possa conduzir RAP a ser amigo do taxista, e isso seria, de certeza absoluta, um pequeno salto para o senhor, mas um enorme salto para a humanidade - a sociedade dos amigos.

Jorge Humberto Dias
22.12.2015

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