quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O CASO DE MARIA


" A Maria conheceu-me através de uma amiga sua, que lhe contou que nas aulas o seu professor de Filosofia tinha referido a existência do Aconselhamento Filosófico como uma «Terapia para Saudáveis», e que tinham desenvolvido toda essa área durante o 3º Período, com a análise e o debate de casos. Essa área prática da Filosofia, dizia ela à amiga, preocupava-se em aplicar os sistemas filosóficos às questões da vida em sociedade. E que durante algumas aulas, os alunos estiveram a analisar a questão da felicidade, a partir de casos práticos do livro do professor Louis Marinoff.
Desta forma, os alunos entenderam que as teorias filosóficas sobre a Felicidade podiam ser muito úteis quando aplicadas à vida de cada um, e como exemplos, foram explorados nas aulas as teorias de Platão e Aristóteles, passando por Epicuro e Séneca, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, até Kant, Stuart Mill, Julián Marias, Fernando Savater, etc.
Ao ouvir as novidades da sua amiga, a Maria sentou-se triste nesse dia e pensou o quanto era infeliz com a vida que tinha. Começou a chorar.
A sua amiga estranhou como é que uma partilha tão alegre podia fazer a Maria ficar tão triste. E não hesitou em perguntar: o que se passa? Tens algum problema? Ao que Maria de imediato respondeu: sim, sou infeliz e gostava de perceber porquê, assim como tentar encontrar um caminho que pudesse dar algum sentido à minha vida. Aamiga sugeriu que a Maria fosse falar com um Conselheiro Filosófico que tinha encontrado na Internet.
No dia a seguir, no final da aula, a sua amiga enviou-me um e-mail a expor a situação e perguntou-me se seria possível eu conversar com a Maria.
Marcámos para o dia a seguir, ao fim da tarde.
Quando vi a Maria pela primeira vez, senti logo que o seu olhar revelava alguma tristeza. A intuição do filósofo. Sentamo-nos confortavelmente e comecei por perguntar à Maria qual era a questão que a preocupava.
A Maria disse que era a relação dos pais e a sua própria relação com os pais. E que não sabia como gerir essas relações, nem sabia o que fazer quando ambos a convidavam para algo.
Os pais da Maria tinham-se divorciado há pouco tempo. Revoltada com a situação, decidiu ir viver com a madrinha. Pai e mãe reiniciaram uma nova vida, e a Maria não estava a saber gerir nem enquadrar-se na nova situação. A mãe saía à noite com as amigas; o pai começou a viver com outra mulher e os seus dois filhos. Tudo mudou na sua vida. Estava a aproximar-se o dia do seu aniversário e a Maria não sabia com qual dos dois deveria ir festejar, sobretudo porque os seus pais viviam longe, em cidades diferentes. O Natal era outro acontecimento que a preocupava, assim como a sua vida universitária e as suas despesas pessoais.
Tudo mudou na vida da Maria, mas sobretudo era o seu modo de pensar que exigia novos conceitos, um reequacionar do seu sistema de valores e respectiva hierarquia, assim como um novo sentido para as suas relações familiares. A Maria queria construir um projecto de vida que lhe trouxesse felicidade, segurança, amor e uma profissão.
Iniciei um conjunto de sessões com a Maria, com o objectivo de trabalhar todas estas questões. Essencialmente, centrei o meu trabalho no conceito de projecto, que a Maria tinha, e agora mais do que nunca, de encontrar e elaborar. Começaram a surgir várias hipóteses e ideias na vida e no pensamento da Maria. Através da análise das suas emoções, facilmente percebi quais os conceitos que a Maria necessitava de trabalhar.
Comecei por estabelecer um plano de sessões, começando pelos conceitos e valores base, e progredindo, como lhe chamaria Tim Lebon, para os conceitos e valores aos quais estavam ligadas as emoções. Na minha perspectiva, e fruto da experiência que tenho recolhido nas sessões com os clientes, penso que é mais frutífero trabalhar primeiro os conceitos e valores que não têm grandes emoções associadas, mas sem nunca esquecer os que têm, pois são esses que revelam maior importância na vida do cliente, pelo menos naquele momento, e que eventualmente justificam a consulta com o Conselheiro Filosófico.
Como em qualquer situação, e isso parecia-me normal, a Maria pretendia sair de casa e ir estudar e trabalhar para longe. Talvez assim conseguisse libertar-se das emoções negativas que a atormentavam e faziam sofrer e dizer que estava infeliz. Mesmo depois de analisarmos os argumentos racionais das várias hipóteses, a Maria foi mesmo para outra cidade à procura de um novo mundo e na tentativa de criar um novo projecto para sua vida. Continuei a acompanhar a Maria nessa outra cidade, porque também eu tinha nessa cidade vários projectos, e tinha que me deslocar até lá várias vezes por mês.
Voltando um pouco atrás, a Maria necessitava de perceber as razões que levaram os seus pais a divorciar-se; precisava também de saber o que era um projecto de vida e como se construía um, sem que o mesmo pudesse ser abalado à primeira dificuldade ou abandonado à primeira paragem; precisava saber como gerir a relação dos e com os pais. O que rapidamente percebi é que a Maria aceitava o divórcio dos pais, pois há muito que tinha percebido as suas divergências. O que a Maria não entendia eram as razões que levaram, gradualmente, ao fim da relação. Foi assim que comecei por analisar com a Maria o conceito de relação, tema fundamental em qualquer Ética Pessoal. Aproveitei para dar a conhecer à Maria as obras de Aristóteles e de Julián Marías, visto que também me tinha solicitado um livro que pudesse ajudá-la e fazer-lhe «companhia» nos momentos em que se sentia mais sozinha. Sugeri que lesse a Ética a Nicómaco, o capítulo sobre a amizade, e que aí analisasse o conceito de relação; como a Maria também lia espanhol, sugeri-lhe La Felicidad Humana. Confesso que as sessões, a partir daí, foram muito mais fáceis. Tornaram-se uma espécie de conversa sobre o modo de colocar na prática a teoria que a Maria ia definindo relativamente à sua felicidade, adaptando-a aos conteúdos da sua vida.
Depois da Maria perceber que já não existia, ou talvez nunca tenha existido, a relação ideal que a Maria preconizava para a sua vida familiar, e que isso não dependia apenas dela, facilmente se dedicou à análise da relação que seria possível ela estabelecer com a sua mãe e com o seu pai, separadamente. A Maria percebeu que o conceito de relação pode estar associado ao valor da amizade, do amor ou da felicidade, desde que possua determinadas características essenciais como a reciprocidade, a promoção, a alegria, o apoio, a disponibilidade. Nessa sessão, exploramos exaustivamente a teoria da amizade de Aristóteles.
A Maria agradeceu-me e nunca mais apareceu. Mas enviou-me um e-mail, a dizer que o importante tinha sido o facto de o Conselheiro Filosófico ter compreendido a sua situação, ter «perdido» tempo a analisar toda a sua circunstância, e, a vantagem suprema, ter contribuído para que arrumasse as suas ideias, emoções, valores e crenças. Por vezes, pensamos que isto se faz facilmente sozinho, mas não. É preciso sermos cuidadosos e precisos no modo como gerimos o nosso «sentido» ético e as relações que estabelecemos com o mundo. Seria muito doloroso se descuidássemos as consequências da desatenção para com a nossa consciência e o nosso raciocínio."
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FONTE: Jorge Dias, Filosofia Aplicada à Vida. Pensar Bem, Viver Melhor. Lisboa, Ésquilo, 2006.
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