sábado, 15 de março de 2014

PERFIL de Jorge Humberto Dias - por Jornalista PATRÍCIA RAIMUNDO


PROFISSÃO: FILÓSOFO 

Um telefonema mudou a vida de um Professor. Afinal, é possível ser-se Filósofo em Portugal.
Era quase um ritual. Jorge Dias sabia que ao final da tarde o telefone tocaria mais uma vez. Estava a ajudar uma pessoa a superar o fim de uma relação amorosa. Atendeu. Mas do outro lado da linha, algo tinha mudado. A tristeza dos últimos dias dera lugar à esperança. Tudo por culpa de um livro.
"Mais Platão, Menos Prozac", de Louis Marinoff, filósofo. Jorge Dias correu a comprar o livro que, dizia a sua interlocutora, o poderia ajudar a desenvolver a sua capacidade de dialogar com as pessoas e orientá-las. Jorge contactava pela primeira vez com a Filosofia Prática. Corria o ano de 2002.
Hoje, para além de continuar a sua carreira como Professor, Jorge Dias é Conselheiro Filosófico (...)
Nasceu em Luanda, Angola. Com dois anos foi para o Brasil, mas rapidamente veio para Lisboa onde passou toda a sua infância e adolescência até se licenciar em Filosofia em Outubro de 1998. A partir daí, deixou a cidade e nunca mais lá parou. “As pessoas têm a ideia de que ser professor e andar de um lado para o outro é muito mau”. Não para Jorge Dias:
“Ter a oportunidade de trabalhar em vários sítios é excelente. Isso sim é formação a sério!”.
Foi esta vontade de aprender sempre mais que o levou a dar aulas um pouco por todo o país: Almada, Alentejo, Açores, Beira Litoral, Algarve.
Para Jorge Dias, cada um destes lugares é uma oportunidade de enriquecer a sua filosofia. Mas foi a sua estadia nos Açores a experiência que mais o marcou: “Não se vive da mesma maneira, logo não se pensa nem se sente da mesma maneira. E estar, pensar e sentir são dimensões que alteram toda uma filosofia, uma vida”.
Apesar das distâncias, os amigos não hesitam em dizer que ele está sempre presente, de uma forma ou de outra: “Os afectos são os sentimentos que me ligam às outras pessoas, que me ligam ao mundo, como uma espécie de autocolantes. Mas sem muita cola, facilmente descoláveis, que me permitem estar longe e perto ao mesmo tempo”, explica Jorge Dias.
Em cada lugar por que passou, por sugestão ou por convite, o professor acabou sempre por ter um programa na rádio local. As aventuras no éter começaram em Almada, primeiro sítio onde deu aulas. O trabalho de aconselhamento e orientação de jovens que estava a desenvolver na Escola começou a ser conhecido e foi então que um locutor de rádio o convidou a fazer uma rubrica semanal sobre Filosofia Aplicada. Chamou-lhe “Conversas com Música”. “Pensávamos que os ouvintes iam todos fugir, que íamos ficar sem audiência”. Tal não aconteceu. A Filosofia levou muitos ouvintes e convidados à rádio. Jorge Dias era já, sem o saber, Conselheiro Filosófico.
A paixão pela Rádio surgiu ainda em criança, quando começou a imitar um locutor da Rádio Renascença que adorava ouvir: “Fazia relatos de futebol quando era miúdo. Gravava, ouvia e depois corrigia. Começaram aí as minhas primeiras colocações de voz.”, recorda. (...)

Hoje vive em Quarteira. Nesta cidade, Jorge Dias viu a possibilidade de construir um projecto. “É sempre a questão do projecto que me atrai. Não aquilo que há na realidade”, explica. Para além de ter gostado da Escola (...), viu em Quarteira um potencial de desenvolvimento, “uma cidade de futuro” onde é possível fazer-se algo de novo. A começar pela forma como é ensinada a Filosofia.
Jorge Dias não se considera um “professor normal”. “Os alunos têm uma ideia do professor que é um tipo chato, que não tem nada a ver com o mundo, que é um tipo que chega à sala, debita as suas teorias, que não interessam a ninguém e que são uma seca. Eu não estou nessa linha”. Leonor Viegas, companheira na vida, diz que “os alunos do Jorge têm uma grande sorte, porque têm um Filósofo, não têm só um professor de Filosofia.”
Fábio Antunes, 15 anos, acha o Professor Jorge “um fixe”. “As aulas são engraçadas. Somos nós que apresentamos os temas e ele vai lá para trás fazer de aluno. Assim aprendemos mais”, conta. Jorge Dias explica que a sua relação com os alunos passa sempre por três fases distintas: “no primeiro período, os alunos odeiam-me; no segundo, até acham que o método é útil, mas ainda não gostam do professor; e no terceiro período gostam muito de mim. Acabo por terminar o ano com uma relação muito próxima com os alunos.”
Na Escola, o Professor de Filosofia da turma de Desporto chega sempre em cima da hora. Os alunos esperam por ele à porta da sala e só quando o tempo de tolerância está a acabar é que o Professor Jorge chega: “Às vezes até pensamos que ele vai faltar. Mas lá vem ele a subir as escadas com o café na mão, bué descontraído, bué estiloso”, revela Fábio Antunes.
Este homem calmo e concentrado é, acima de tudo, um Filósofo. Depois do telefonema que lhe deu a conhecer a Filosofia Prática, Jorge Dias frequentou um curso de Aconselhamento Filosófico em Inglaterra e desenvolveu o seu próprio método, relacionado com a felicidade, a que deu o nome de PROJECT@. Em 2006, publicou o seu livro, “Pensar Bem, Viver Melhor”, onde, para além de expor o seu método, descreve a situação da Filosofia Prática em Portugal.
(...) É no tempo que passa com a família que Jorge Dias encontra o equilíbrio de que precisa para desempenhar o seu trabalho da melhor forma.
(...)
O lado mais formal de que se fala é a faceta de Director. O pai dedicado veste o fato e põe a gravata e então é o profissional “competente, comprometido eticamente, dedicado e persistente” que Tiago Pita, amigo e colega, reconhece. (...)
E é precisamente neste cargo que Jorge Dias diz, sem hesitar, sentir-se mais realizado: “Por duas razões: Liberdade e Projecto. Como professor tenho um projecto mas não me sinto livre. Como conselheiro, sou livre, mas sem projecto. Como Director sinto-me livre e com um projecto.”
Numa escala de 0 a 100, o projecto de vida de Jorge Dias vai nos 70: “Significa que sou feliz. Só não vou nos 100 porque ainda tenho algumas coisas para fazer”.
        9.2.2007

Patrícia Raimundo
Jornalista
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