quinta-feira, 23 de julho de 2009

O CASO DE D. ISABEL - CONSULTORIA FILOSÓFICA


"A D. Isabel consultou-me uma única vez. Era dona de casa, como se costuma dizer, e raramente pedia ajuda a quem quer que fosse. Mas uma amiga sua tinha falado em mim (...).

A D. Isabel queria saber como lidar com uma pessoa depressiva, que vivia com ela todos os dias. Grande desafio para uma sessão de 50 a 60 minutos. E a questão tinha de ser resolvida numa única sessão, porque a senhora não tinha tempo nem dinheiro para perder com "desperdícios". Estava ali para que eu lhe resolvesse o problema e lhe desse a minha opinião.
De início, a cliente sofria imenso, porque era maltratada por esse familiar, que com o tempo se tornara cada vez mais agressivo e ofensivo.
Apesar de neste momento a situação estar mais calma, pois esse familiar tinha iniciado um tratamento à base de antidepressivos… Mas como já era o quarto tratamento, a D. Isabel receava que o pior voltasse. E a sua paciência estava a chegar ao fim. A D. Isabel receava que tivesse de tomar medidas e mandar o familiar embora da sua casa. A situação não podia
continuar assim. Perguntei-lhe se já tinha consultado um Psiquiatra. A D. Isabel disse que não era ela que tinha o problema, mas sim o familiar. E eu disse que o Psiquiatra poderia ser muito útil também, porque a sua experiência com estados depressivos altamente patológicos permitiria aconselhar a D. Isabel a gerir melhor a relação com o seu familiar.
Então e o Dr. Jorge Dias não tem opinião? – perguntou. A cliente queria mesmo saber o que pensava eu da situação. Tentei saber o que pensava a D. Isabel acerca dos problemas do familiar.

Explorámos a questão do seu desemprego, até que chegámos às questões da falta de diálogo, baseada numa mentira que esse familiar tinha dito há umas semanas atrás. Esta situação fez-me lembrar um artigo que tinha lido sobre a Ética Aplicada de Rawls e Habermas. Sem referir nomes nem teorias, como é óbvio, perguntei à D. Isabel se havia mais alguém a viver lá em casa. A senhora disse que sim, o seu marido e uma irmã. Depois perguntei se não havia ninguém que pudesse estabelecer um diálogo entre os dois, no sentido de tentar abordar a questão de modo calmo, sério e inteligente. «Sim, a minha irmã é capaz de ter jeito para essas coisas» – respondeu a D. Isabel. «Então é simples, fale com ela, explique-lhe a situação, diga-lhe quais são os seus argumentos (pense muito bem antes de os escrever) e depois peça-lhe para falar com o seu familiar e para lhe pedir também um papel com os argumentos dele sobre a situação. Aí a sua irmã verifica se pode resolver ela a situação, caso contrário, trocam de papéis e ambos comentam ou marcam um dia para conversarem a sério sobre o assunto. Creio que pode aproveitar esta oportunidade em que o seu familiar está em tratamento antidepressivo para resolver definitivamente este diferendo. Provavelmente, a divergência desaparecerá, dado que são familiares». A D. Isabel concordou totalmente com a minha perspectiva, que no fundo não era minha, mas a estratégia de muitos especialistas em Ética Aplicada, sobretudo em situações de conflito de valores em Empresas e outras Instituições. Um dia um advogado amigo dizia-me: é preciso ter muito cuidado com o deteriorar das «relações» entre as pessoas, e a melhor forma para resolver um conflito entre pessoas muito emotivas e que têm dificuldades de expressão oral é através do «método dos papelinhos».

Em Ética pessoal, também podemos aprender com esta estratégia, e perceber, por exemplo, a Teoria dos Jogos, que ajudou dois cientistas a ganharem, em 2005, o Prémio Nobel da Ecomomia.

Quando nada fazia prever, a D. Isabel, no final desta consulta, disse-me que queria marcar outra consulta, pois tinha gostado muito de conversar comigo, mas que tinha de ser para o mês de Abril, pois tinha uma viagem marcada para França, onde ia visitar um familiar que estava muito doente."


FONTE: Jorge Dias, Filosofia Aplicada à Vida. Pensar Bem, Viver Melhor, Lisboa, Ésquilo [e APAEF], 2006.

16 comentários:

ana magno disse...

é muito difícil comunicar com uma pessoa deprimida porque normalmente entregam-se á depressão o que dificulta qualquer diálogo, deixa-se de usar a razão e
o entendimento,embora seja mais fácil com umas pessoas do que com outras, daí que o " método dos papelinhos" seja eficaz, é óbvio que havendo a possibilidade de ser outra pessoa que não aquela a falar, isso pode resultar, ainda bem!

. disse...

A questão de fundo que se coloca é: pode a Filosofia trabalhar alguma dimensão da pessoa com Depressão? Ou será a Psiquiatria a única área a poder trabalhar com uma pessoa deprimida?

Marafado disse...

Na minha opinião é sempre muito complicado lidar com alguém depressivo. É uma entrada num caminho quase em espiral, e muitas vezes insistir no diálogo ou até arranjar um "moderador" pode não ser muito bem aceite pela pessoa deprimida. Uma boa dose de paciência é essencial. Levar a pessoa a perceber que certas ideias e sentimentos que tem são um pouco ridículas, que não fazem sentido nenhum porque não as levam a conclusão nenhuma, na minha opinião, acho que pode ajudar. Não dar grande importância a certas atitudes e comentários e mostrar que não têm razão de ser. O humor muitas vezes é o melhor remédio. Mas sempre com respeito pelo outro, é claro. Em relação às discussões, eu imagino sempre a seguinte situação: duas pessoas, frente a frente e um balde vazio no meio. Cada frase dita por cada um é como se fosse um copo de àgua deitado ao balde; e ele vai enchendo, até que vai chegar ao ponto eo que o balde está cheio e a qualquer momento, uma das pessoas envolvidas vai atirar com a àgua à cara do outro. Porque ambos encheram o balde acham-se no direito de poder atirar com o balde ao outro. Se por outro lado, fôr apenas só uma a encher o balde (a discussão seria só de um lado), dificilmente a pessoa que contribuiu sozinha para encher o balde vai atirá-lo à cara do outro.
Acho no entanto que a solução encontrada foi a melhor, uma vez que a D. Isabel até se mostrou receptiva a partir de certo ponto.

Luís

ana magno disse...

chamas a atenção para as agressões verbais que realmente fazem encher o balde, segundo dizes; um exercício possível é fazer com que cada um fale na sua vez e seja obrigado a ouvir as queixas do outro com a mediação do conselheiro

ana magno disse...

a questão é pertinente... uma pessoa deprimida não ouve outra, fica sem paciência tanto para falar como para ouvir, daí que se se misturar filosofia ainda é pior porque essa pessoa vai reagir mal;
parece-me que a terapia medicamentosa para a depressão a longo prazo vai facilitar a intervenção de um técnico

. disse...

Caro Luis,

Muito obrigado pelo seu contributo.
Interessou-nos, sobretudo, a sua ideia do humor. Será que poderia desenvolver um pouco mais esse tópico?
A ideia é ver se podemos estar perante um eventual instrumento de trabalho para o Consultor Filosófico...

. disse...

Olá Ana Magno,

Muito obrigado pelo seu contributo.
Pensamos que a sua ideia do Consultor Filosófico como Mediador pode ser um tópico muito interessante para um futuro artigo, trabalho de investigação, tese, etc. Sobretudo, porque em Portugal não existe qualquer tipo de produção na área...
Quanto ao trabalho colaborativo entre Psiquiatra e Consultor Filosófico, concordamos inteiramente!

ana magno disse...

a colaboração entre a psiquiatria e o aconselhamento filosófico é inteiramente possível e desejável porque o psiquiatra pode fazer uma coisa que o consultor filosófico não pode, que é receitar a medicação, e sem medicação nenhumas melhoras serão visíveis, nomeadamente no caso da depressão; outro aspecto é que, penso eu, uma coisa são as doenças psiquiátricas e outra são os problemas eventuais de determinado
paciente saudável em princípio, não sei, mas tenho quase a certeza que o aconselhamento filosófico não trata doenças que a psiquiatria trata, talvez numa fase posterior do tratamento...

ana magno disse...

para quando a formação em aconselhamento filosófico no Porto?

ana magno

. disse...

Olá Ana,

Concordamos inteiramente com a ideia de um trabalho conjunto entre Psiquiatra e Consultor Filosófico.
Também concordamos com o facto da Ana considerar que o Consultor Filosófico não poder fazer o trabalho que o Psiquiatra faz, como por exemplo, receitar medicamentos. No entanto, deixo-lhe a pergunta: então e o Psiquiatra consegue fazer o trabalho que é exclusivo do Consultor Filosófico?

ana magno disse...

claro que em todos os tipos de psicoterapia há um discurso analítico que faz parte do processo de cura, do encontro das soluções; apesar de tudo também acho que as especificidades de cada modelo são flagrantes; acontece que os problemas que a psiquiatria trata não são os mesmos que trata a consultoria filosófica, entendem...?

mary disse...

Caro Conselheiro filosofico...

Realmente a depressao e um problema grave e, infelizmente, muito comum nos nossos dias... percebe-se que inúmeras actividades deveriam ser implementadas em função de uma "cura" para estas pessoas cujas forças para viver se encontram escassas, no entanto, tão importante quanto isso seriam conselhos úteis e vitais para aqueles que lidam directa e vivamente com este mal...muito se aprende num dia-a-dia real com um doente em depressão, mas muitos são os momentos em que os seus "tutores" procuram uma ajuda externa que não conseguem obter…um exemplo bem claro que a muitos se levanta é o factor mudança, que em pessoas sensíveis como as depressivas torna-se uma verdadeira tempestade e um bloqueio enorme para qualquer passo...neste caso, sendo as mudanças drasticamente inevitaveis, como poderemos nós torná-las menos duras para aqueles que sofrem?

Agradeço imenso os casos que nos fazem reflectir vivamente acerca das mais variadas necessidades da nossa sociedade.

Cumprimentos

ana magno disse...

a solução mais comum e que continua a ser a melhor, é o internamento numa instituição de saúde mental; aí as pessoas que estão deprimidas encontram-se de facto face a face com a sua situação real e começam a perceber que já não estão em casa, que os técnicos já não são da família, e por aí fora... então as verdadeiras resistências e as dificuldades são mais perceptivas para si próprios;

ana magno disse...

o trabalho exclusivo do consultor filosófico é totalmente diferente do trabalho exclusivo do psiquiatra, porque não tratam os mesmos problemas; um doente de psiquiatria, sinalizado como tal, não conseguiria sequer olhar direito para o psiquiatra que o quer tratar, a crise de um doente de psiquiatria é muito diferente da crise de um "doente" que recorre ao aconselhamento filosófico; uma coisa é a descompensação, um problema bioquímico e outra é uma pessoa que sente necessidade de uma orientação, forçosamente esporádica de que a ajudem a pensar, a reflectir; acham que um doente de psiquiatria consegue pensar em termos filosóficos?

. disse...

Cara Mary,

Muito obrigado pela sua participação. Aliás, constatamos que é uma visitante habitual do nosso Gabinete...
Quanto à sua questão, assaz pertinente, precisamos que nos explicite melhor a situação de mudança a que se refere.
No entanto, podemos dizer que um processo de mudança envolve sempre um contexto específico, o qual é necessário compreender para verificar se, no fundo, o sofrimento é ou não "desajustado"...
Veja-se também que a vida emocional de cada um é algo natural no ser humano, no entanto, a Consultoria Filosófica, ao analisar a questão de modo racional e de acordo com alguns sistemas de pensamento, poderá indicar um caminho para a pessoa, bem mais saudável e coerente com a situação...

Cumprimentos,

. disse...

Olá Ana Magno,

Como está?

Quanto ao seu pedido para nos deslocarmos ao Porto, poderemos ver essa possibilidade por e-mail.
No que diz respeito à pessoa com depressão, pensamos que é necessário saber, em primeiro lugar, que tipo de depressão a pessoa tem.
No entanto, pensamos que poderá ser realizado um trabalho filosófico de caracter experimental. Sobretudo porque não existem teses que abordem estas questões de modo cientifico...