quarta-feira, 3 de junho de 2009

O CASO DE CHRISTINA


"A Christina é uma senhora dinamarquesa que está em Portugal por questões meramente profissionais. É uma gestora de sucesso, mas nunca se conseguiu adaptar à cultura portuguesa, ao modo como a sociedade está estruturada. Havia consultas em que passava mais tempo a ouvi-la falar das duras críticas à mentalidade portuguesa, ao procedimento típico nas instituições, ao constante apelo à corrupção, ao enganar o próximo, ao aproveitar-se das situações e à falta de educação no espaço público. Todos os dias, a Christina tinha que fazer um esforço enorme para não discutir com colegas, «subordinados incompetentes», clientes, fornecedores, etc.
Mas o problema desta senhora era o seu companheiro. David estava completamente diferente. Quando o conheceu, ele era carinhoso, compreensivo, um excelente conversador e trabalhador. Trabalhavam os dois na mesma empresa. Mas agora tudo tinha mudado. A sua vida era um inferno.
E para não sofrer tanto, tinha decidido entregar-se ao trabalho e consultar-me todas as semanas. Já vamos na 12ª consulta.
O que mudou então? O seu companheiro também nunca se conseguiu adaptar a Portugal, e todo o «stress» da situação, sobretudo a dificuldade em lidar com esta dificuldade, levou o David para a bebida, para as saídas à noite com amigos e amigas… e o pior, para a violência com Christina.
A cliente estava proibida de fazer muitas coisas: não podia falar com homens (mas comigo o marido deixava, porque eu era visto como um «técnico de saúde espiritual» – dizia-lhe ele), não podia sair à noite, tinha de fazer tudo o que David pedia. Sentia-se um «farrapo humano». Tinha medo de contar a sua história a alguém, pois temia que lhe acontecesse o pior.
De imediato, perguntei-lhe se já tinha falado com alguma Instituição.
Christina disse que a situação era passageira, porque David estava a ser acompanhado por um Psiquiatra. E assim que o seu problema fosse curado, a sua vida voltaria ao normal. Perguntei também porque é que a Christina também não tinha pedido ajuda a um Psiquiatra, ao que me respondeu que tinha o seu psiquismo controlado. O seu único problema era com a vida e com o seu companheiro. Queria encontrar um argumento forte para continuar a acreditar que a sua felicidade iria voltar… Ainda falamos de mais coisas, mas nada se adiantou.
O que me parece importante relatar aqui é a questão filosófica que discutimos na oitava consulta: perguntei à Christina porque estava a viver com o David. Porque o amava – disse-me. Mesmo quando lhe bate? Sim, porque compreendo as suas razões. Quais? A sua doença e os seus problemas, com os quais me identifico. Ele é a minha alma gémea – disse.
Perguntei-lhe qual era a sua definição de amor. Aí começaram as dificuldades conceptuais. Christina disse que eu fazia perguntas muito difíceis.
Se assim é – disse-lhe –, então, talvez seja melhor parar a consulta… A cliente fez questão de prosseguir, e justificou as suas dificuldades, devido ao facto de nunca ninguém lhe ter feito essa pergunta. Mas via isso como um desafio. Depois de desenvolvermos as questões mais comuns, reperei e disse-lhe, que não tinha encontrado ainda, na sua definição, a violência como forma de expressar o amor que se tem por alguém. Mas isso é uma excepção, um caso à parte – explicou Christina.
Depois de abordarmos valores como a fidelidade, o respeito, a sinceridade, o carinho, a paz, a cumplicidade, etc., a cliente foi deixando de argumentar a favor do seu amor por David. Até que admitiu que estava a forçar uma situação. Tinha plena consciência de que o seu pensamento estava errado, mas como ainda lhe custava muito dizer ao mundo e a si mesma que a sua relação e a sua felicidade tinham terminado, Christina vinha adiando. Depois porque ninguém desconfiava de nada, o seu sucesso profissional era o mais visível.
Foi na décima consulta que Christina vinha com uma vontade enorme de explorar a questão da Felicidade. Tinha visto na Internet que esse era um tema a que eu me dedicava a investigar. Falei-lhe de várias teorias e autores, como Platão e Sócrates, Aristóteles, Santo Agostinho, Kant,
Freud, Julián Marias. Foi sobre este último que a cliente teve mais curiosidade.
Sabia que o Filósofo espanhol tinha falecido há pouco tempo, e tinha deixado um obra imensa, mas o destaque ia para um livro sobre a e Felicidade, com 386 páginas. Incrível como esse senhor conseguiu escrever tantas páginas sobre esse tema… – dizia-me Christina. Será que houve mais alguém que escrevesse tantas páginas? – perguntou. Sim, houve recentemente um Psiquiatra espanhol que escreveu Uma Teoria da Felicidade mas que tem muitas influências de Julián Marias – respondi. E acrescentei ainda: aliás, Enrique Rojas, seu nome, apresenta a Felicidade como um «impossível necessário», conceito desenvolvido por Julián Marias,
mas que o Psiquiatra espanhol não revela.
Christina pretendia saber também qual a minha definição de felicidade, e fomos falando, debatendo… Têm sido assim as últimas sessões. E com isto a sua auto-estima melhorou consideravelmente, tornando-se mais optimista, ao ponto de agora estar a viver com a irmã. Ao contrário do que seria de esperar, o companheiro concordou ser a melhor solução, devido à sua debilitação psicológica, que não conseguia evitar sozinho.
Por vezes, os preconceitos do nosso quotidiano misturam-se de tal forma com as emoções e as crenças, que nos impedem de ver claro os conceitos que na prática nos poderiam ajudar a percorrer outro caminho na vida."
FONTES:

Texto
- Jorge Dias, Filosofia Aplicada à Vida. Pensar Bem, Viver Melhor. Lisboa, Ésquilo, 2006.

10 comentários:

mary disse...

Até que ponto devemos ignorar a nossa essência perante o amor ao próximo?

Será que o amor verdadeiro tem limites?

Se pensarmos bem, o verdadeiro amor não deveria impôr limites, já que, sendo verdadeiro ambas as partes suas componentes apenas trabalham no sentido do bem-estar do outro, mas, fora a utopia, a diferença existirá sempre num relacionamento e o respeito perante essa diferença pressiste nos limites...traduzindo, os limites são a verdadeira essência do amor perfeito.

Dani disse...

Gostei de ler a sua história...
Curioso como as pessoas buscam tanto a felicidade nos outros e fora de si... e amam mais os outros do que a elas próprias!

Obrigada pela patilha,

. disse...

Olá Mary e Dani,

Muito obrigado pelo comentário. De facto, o amor continua a ser um problema humano muito debatido e fonte de encontros e desencontros.
Neste segundo caso, a pessoa pode decidir-se por visitar o Gabinete de um Consultor Filosófico.

Em breve, publicaremos outro caso...

Henrique Salles da Fonseca disse...

O marido dela passou a meter-se nos copos quando chegou ao clima quente e nós, os portugueses, é que pagamos...
Felizmente o «consultor filosófico» vai recebendo umas maçarocas.
Deixem-se de palhaçadas e não nos chateiem: eles que voltem para o paraíso dinamarquês (de que tinham saído).
Henrique Salles da Fonseca - Lisboa

. disse...

Obrigado pelo comentário.
De facto, a questão da multiculturalidade é um dos aspectos que tem despertado a investigação de muitos Consultores Filosóficos.

Volte sempre!

ana magno disse...

é complicado quando se misturam crenças e preconceitos com as emoções pessoais e sentimentos; sendo uma senhora estrangeira e nórdica em portugal compreende-se, parece é que ela queria a todo o custo manter a relação negando o facto de já ter degenerado em violência doméstica; sendo assim, teriam mesmo de ser separados, a filosofia não poderia ajudar muito...

. disse...

Pergunto à Ana Magno: porque razão a senhora desejava manter a relação?

Gypsy disse...

A maior parte das vezes quando dizemos amar alguém são apenas acumulações daquilo que aprendemos (bem ou mal) que é o amor. E a maioria das vezes não passa de repetições de padrões afectivos familiares que nada têm a ver com amor mas com carências, afectos e necessidades.
Quem diz amar quem maltrata não sabe o que isso é: o amor é um "querer bem" ao outro e a nós.
E querer bem pode ser independente dos afectos, desejos ou ilusões românticas...Pode ser até muito sofrido.Mas tem limites : não o que se sente e deseja, mas a qualidade do que se quer

. disse...

Boa tarde,

De facto, há uma dimensão de aprendizagem no amor, mas nã será que pode também haver uma forte dimensão de criatividade individual?

ana magno disse...

... também não percebo nadado que é o amor, mas evito defini-lo porque ainda é pior, talvez porque também ande á procura da qualidade...