quarta-feira, 27 de maio de 2009

O CASO DE JOHN E OS MÉTODOS PROGRESS E PEACE


"Tim Lebon desenvolveu o «Caso de John», aplicando, detalhadamente, todos os passos e aspectos técnicos do seu Método PROGRESS. Apesar de este caso ter sido trabalhado, em primeiro lugar, por Louis Marinoff, penso que, por isso mesmo, ele se tornou no caso mais paradigmático da formação dos Conselheiros Filosóficos.
Já em 1995, na obra Essays on Philosophical Counselling, publicação relativa ao «I Congresso Internacional de Filosofia Prática», organizado por Louis Marinoff e Ran Lahav na British Columbia University, no Canadá, o caso de John havia sido apresentado publicamente por Louis Marinoff, quando o Filósofo americano se referiu à emergência do Aconselhamento Ético, nas páginas 171-192, e onde apresentou dois casos práticos.
O autor começou por tecer algumas considerações históricas, teóricas, metodológicas e profissionais sobre o tema, para, posteriormente, apresentar o caso nº1: «Um problema familiar pessoal». Cliente: um estudante licenciado de uma universidade. Modo de comunicação: entrevista pessoal.
Método de Aconselhamento: não-prescritivo. Tal como é exigido em todos os Congressos Internacionais de Filosofia Prática, Louis Marinoff apresentou o caso de modo extremamente organizado. Aliás, é isso que permite ao público assistente, formado ou não em Filosofia, com uma especialização ou não em Aconselhamento Filosófico, compreender o desenrolar do processo de aconselhamento, assim como todas as questões metodológicas que o acompanham e que são decisivas para um final com sucesso.
Marinoff define em primeiro lugar o problema: o estudante – nome fictício: John – procurou aconselhamento ético para o ajudar a resolver um problema pessoal, que envolvia a sua mãe já com uma certa idade.
Depois explorou o seu dilema ético: «deixar ou não a mãe no Hospital enquanto procurava um Lar para ela». Apresentou a análise coordenada pelo Conselheiro Filosófico e finalmente apresentou a resposta de John.
Não é meu objectivo aqui desenvolver o método de Louis Marinoff, mas sim o método de Tim Lebon, ou melhor, mostrar ao leitor como é que o método PROGRESS, já apresentado num capítulo anterior, pode ou não ajudar o John neste problema. Esperamos assim contribuir para que o leitor, que eventualmente possa estar a viver um problema ético, consiga, por si só, aplicar este método. Aliás, não é impossível, desde que se tenham alguns conhecimentos filosóficos (elementares) e se adopte uma atitude rigorosa em todo o seu longo processo. Se assim o fizer, não se esqueça de pegar num bloco de papel e no seu lápis preferido, pois vai precisar
para apontar todos os passos do método, para que no fim possa decidir em consciência (informado) e analisar a sua avaliação pessoal em todo o processo. Se por alguma razão tiver dificuldade em implementar o método, poderá sempre solicitar o apoio de um Conselheiro Filosófico certificado (na APPA, na SPP, na APAEF, no grupo ETOR, na APFC, na
ASEPRAF, etc.).
A análise de Marinoff relativamente ao caso John foi posteriomente divulgada, também, no seu livro com maior êxito de vendas: Mais Platão, Menos Prozac, na edição portuguesa de 2002. Na página 144 podemos encontrar a explicação de todo o processo.
Assim sendo, passarei a explicar de que caso se trata, para depois apresentar a aplicação metodológica do PROGRESS.
A mãe de John, Celeste (nome fictício), sofria de uma doença neurológica degenerativa e vivia numa cadeira de rodas. John vivia com a sua mãe, sobretudo porque as suas condições económicas não eram as melhores.
John estava a frequentar um curso de pós-graduação. A sua mãe necessitava de cuidados constantes.
Mas acontece que o último ano foi extremamente difícil para John. A sua mãe teve ataques constantes de desorientação e ansiedade. E a tendência era para aumentarem. Com tudo isto, John começara a sentir-se angustiado, sempre que tinha de ir trabalhar ou para a Universidade. Tinha períodos em que perdia por completo a sua lucidez. Mas a sua mãe tinha-lhe passado uma Procuração, dando-lhe plenos poderes legais.
Foi então que sucedeu aquilo que John sempre receara: um dia, quando regressou a casa, encontrou a mãe caída no fundo da escada, inconsciente e a sangrar, porque tinha tentado descer a escada com a cadeira de rodas.
Levada ao Hospital, os médicos não encontraram nenhum ferimento grave, mas consideraram que a senhora deveria ser enviada para uma Casa de Repouso. Apesar do carinho que John lhe poderia dar, e que era de facto fundamental para a sua mãe, a situação era mais complexa: a mãe
precisava de atenção constante. E isso o John não lhe poderia dar.
Foi aí que os médicos e as assistentes sociais sugeriram a John que deixasse a mãe ficar no Hospital, até que encontrasse um Lar para ela, mas isso poderia demorar alguns meses.
John até admitia a questão da «atenção constante» que a mãe precisava, mas receava que o seu estado de espírito e de saúde se deteriorassem, caso ficasse no Hospital. Amãe não precisava de tratamento médico.
Ficar assim num Hospital seria pouco estimulante para ela. Nos momentos de lucidez, Celeste pedia que a levassem para sua casa.
John gostaria de fazer a vontade à sua mãe, mas sabia que teria de a deixar sozinha nalguns momentos do dia, e que também não tinha recursos financeiros para pagar a alguém que ficasse com ela.
A solução que John tinha em mente era de passar um último Verão com ela, durante as suas férias, no sentido de preparar a sua ida para o Lar de Idosos.
Foi nessa altura que John consultou o Dr. Louis Marinoff. John pretendia esclarecer-se sobre as implicações éticas de ambas as possibilidades.
E de facto, a questão tinha claras dimensões do trabalho filosófico: a Ética e a questão do livre-arbitrio. Em Ética, tínhamos a questão da «responsabilidade » de John pelo «bem-estar» de outra pessoa, do «interesse» que deve orientar a nossa acção. Na realidade, este caso dizia respeito a um filho que queria cuidar da sua mãe, mas este tipo de questões é mais comum acontecer quando se trata de pais que têm filhos ainda pequenos.
Independentemente disso, John queria saber qual a possibilidade mais correcta do ponto de vista ético, para que a sua decisão deixasse a sua consciência mais leve e descansada.
Posto isto, o leitor poderá encontrar, a partir da página 146, a aplicação que Louis Marinoff fez do Método PEACE.
O Conselheiro americano refere que utilizou a Teoria da Decisão para guiar o John na fase contemplativa do Método PEACE(1). Teoria da Decisão é o nome filosófico de uma Teoria de Jogos criada por John von Neumann e Oskar Morgenstern, para ajudar os participantes a decidir, de acordo com um conjunto de regras, qual a jogada óptima, mas habitualmente sem que todos os factos estejam à vista. Segundo esta teoria, há sempre um movimento óptimo e, se o descobrirmos, nunca perdemos. O pior que nos pode acontecer é empatar a partida (no xadrez, por exemplo).
Porém, a vida não é um jogo com regras escritas. John tinha de agir, mas infelizmente para ele, o dilema quanto ao que fazer com a mãe era um género de jogo pouco ordenado. Os jogadores eram vários, e as perdas possíveis não eram equivalentes aos ganhos potenciais. Mas a Teoria da Decisão podia ser útil por representar um jogo em termos de escolha pessoal, consequências possíveis, e por fornecer uma imagem nítida da situação.
Louis Marinoff, Mais Platão, Menos Prozac, pág. 147.
Este cenário demonstra que não existe uma escolha óptima em nenhum dos resultados possíveis. ATeoria da Decisão não nos diz como devemos jogar, mas ajuda a estabelecer os critérios que devemos usar antes de decidir. Neste ponto, penso que os métodos filosóficos dos Conselheiros
se aproximam todos: PEACE, PROGRESS, RSVP, Charles Darwin, «Project», etc. A análise pormenorizada que Louis Marinoff refere na página 148, relativamente a avaliar as condições da decisão, as várias opções possíveis, as vantagens e desvantagens de cada opção, etc. Tudo isto
é muito semelhante ao itinerário que vamos, daqui a pouco, seguir no método de Tim Lebon.
O autor americano refere que devemos sempre evitar as «Falácias do Jogador»: 1) o jogo é tanto melhor quanto maior for o prémio; 2) quando acontece algo num momento, é pouco provável que volte a acontecer logo a seguir. De qualquer modo, «não me cabia a mim pronunciar-me sobre a
opção a tomar por John, mas não deixei de falar da responsabilidade moral de tomarmos decisões em nome de outras pessoas.» No final da segunda consulta, John sentia-se equilibrado e com condições para decidir de modo ético, ou seja, tranquilo porque fundamentado racionalmente em valores, e o mais universal e vantajoso possível. «Não sei, nem tenho de saber o que John decidiu fazer. Enquanto Conselheiro Filosófio, a minha responsabilidade é ajudar o cliente a atingir a autosuficiência!»
Vamos agora desenvolver a aplicação do Método PROGRESS. (...)"

FONTES:
Texto - Jorge Dias, Filosofia Aplicada à Vida. Pensar Bem, Viver Melhor. Lisboa, Ésquilo, 2006.
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